Minhas habilidades técnicas não são das piores. Eu mesmo, com serra, furadeira e parafusos, construí as estantes do meu escritório. E até que elas me agradam, quando vistas de longe. O importante é não examinar os detalhes, pois aí me falha a fineza artesanal. De vez em quando conserto uma fechadura enguiçada e consegui mesmo reconstruir uma torneira elétrica que havia se espatifado no chão. Minha inclinação para lidar com a construção e a reconstrução de coisas se manifestou pela primeira vez quando eu tinha apenas sete anos de idade, ocasião em que desmontei o relógio velho de minha mãe, para ver como ele era feito, evidentemente com a intenção de montá-lo de novo. Infelizmente essa segunda parte da minha experiência em mecânica não pôde ser realizada, pois eu me esqueci da ordem em que as peças deviam ser ajuntadas. Meus pais, ao invés de ficarem bravos, ficaram orgulhosos, pois viram no meu ato inegável vocação para engenharia. Minha competência para matemática, que se revelou logo no curso primário, confirmou esse diagnóstico, e ninguém duvidava, nem mesmo eu, que no futuro eu seria um brilhante engenheiro.
Mas a vida nos conduz por caminhos não previstos, e em vez de desenvolver minha competência na direção da técnica, acabei por me meter numa área totalmente diferente, onde a coisa mais de impossível de se fazer é um artefato técnico. Do ponto de vista da técnica sou totalmente inútil e incompetente – o que me condenou à posição marginal de alguém incapaz de produzir as coisas que fazem a glória e a riqueza do nosso mundo. Minha ignorância das coisas da tecnologia avançada – como este computador em que escrevo esta crônica – é absoluta e os princípios científicos que tornaram possível sua fabricação me são um mistério absoluto. Eu sou um relógio de corda na era digital. Quero, portanto, deixar manifesta minha admiração – mais do que isso, minha inveja – por aqueles que são os magos-construtores deste mundo tecnológico em que vivemos.
Se eu tivesse entrado pelos caminhos da tecnologia, um lugar onde gostaria de trabalhar é na IBM. Porque, se não estou equivocado, a IBM é uma das mais altas e perfeitas manifestações do espírito tecnológico, na sua maior pureza. Tudo o que ela faz é (quase) perfeito. Digo “quase” porque, paradoxalmente, perfeição tecnológica só pode existir no campo do pensamento puro. As coisas produzidas, por maior que seja o controle de qualidade, têm sempre imperfeições. Os aviões caem, os computadores são infestados por vírus, os metais se rompem de fadiga. Para nós “quase” perfeito já está muito bom.
Mas a IBM me surpreendeu quando descobri que ela também está interessada na beleza. Gastou o seu dinheiro para produzir um dos vídeos mais lindos que já vi, comovente e inspirador, sobre a vida de Leonardo Da Vinci, um dos maiores gênios da história da humanidade. Eu, Leonardo... Mente inquieta, incontrolável, indomável, dominada pelo fascínio do mundo – seus olhos e seu pensamento não conseguiam descansar ante os infinitos objetos do mundo, existentes e por existir. Julgava a pintura a suprema das artes, pois por meio dela se podia captar visualmente a harmonia da natureza, construída segundo princípios da matemática. Estudou anatomia, para entender os princípios mecânicos segundo os quais o corpo humano – esta máquina perfeita – era construído. Músico, fazia seus próprios instrumentos, compunha, tocava e improvisava os poemas que cantava. Arquiteto, fez planos para uma cidade ideal, em que as casas fossem construídas segundo os princípios da beleza, banhadas de luz, em que houvesse vias especiais para os pedestres e outras para os veículos. Imaginava máquinas. O seu pensamento voava tão longe que a tecnologia existente não era capaz de produzir aquilo que ele imaginava – e por isso elas permaneceram apenas como projeto, no papel. Estudou o vôo dos pássaros, a fim de construir uma máquina que desse aos homens o poder de voar. Sonhou com navios que navegassem debaixo das águas, como peixes. Observava o tempo e os sinais, para compreender os princípios da meteorologia. Estudava a água, que acreditava ser o princípio vital do universo. Observava os fósseis, e concluiu que em passados remotos o cume das montanhas havia estado submerso nas águas. Fascinava-se com os cavalos, para ele os mais belos animais, depois do homem, e fez estudo sobre a sua estética.
O que era Leonardo? Pintor, músico, arquiteto, poeta, engenheiro, geólogo, biólogo? Todas essas coisas. Dentro do seu corpo vivia um universo. Homem universal, ele foi a encarnação, num único corpo, do ideal da Universidade como o lugar onde os homens se reúnem para, dando asas à imaginação, encontrar o deleite na visão, na compreensão e na harmonia com o mundo.
Foi então que me veio uma idéia maluca: se Leonardo Da Vinci tivesse vivido hoje, será que ele teria conseguido um emprego na IBM? Para começar, o seu curriculum vitae provocaria suspeitas. Um homem com interesse que vão da estética dos cavalos à construção de máquinas voadoras não parece regular bem. Mas, suponhamos que ele conseguisse o emprego. Imagino uma situação prática: seu chefe lhe pede um relatório sobre um projeto de pesquisa e ele responde que no momento isso não é possível porque está se dedicando a um projeto estético por que se apaixonou – a pintura de um quadro. È. Acho que Leonardo Da Vinci não teria vida longa nem como funcionário da IBM, nem como professor de uma das nossas universidades.
Espero que meus amigos da IBM(e das universidades) me entendam. Que não tomem isto como nada pessoal. A relação é puramente acidental. Primeiro, porque foi ela que fez o maravilhoso vídeo do Leonardo. Segundo, porque eu, de fato, acredito que a IBM representa o que há de mais alto no mundo técnico. Ainda, uso as universidades, porque entrei e saí dela(paliativamente) e uso como parâmetro com a realidade(ou utopia). Uso a IBM e as universidades apenas como metáfora e representante da lógica da produção organizacional da tecnologia, que pode assim ser resumida: “organizações de produção de tecnologia não toleram Leonardos”.
(...) garantir a qualidade uniforme e confiável aos produtos, em análise com as ferramentas que o avaliam, esse é o objetivo, o controle da qualidade.
Acontece, entretanto, que a parte mais importante desse processo não é o controle de qualidade dos produtos, mas o controle de qualidade do pensamento. É do pensamento que nascem os produtos. O mundo começa não na máquina, mas na inteligência. Por isso, ao lado dos mecanismos de controle técnico, as organizações, que há muito, aprenderam que é preciso controlar o pensamento – a domesticação do gênio. O cientista deve abandonar a sua imaginação divagante que o leva a andar pelos caminhos do seu próprio fascínio e tornar-se uma função dos objetivos determinados pelos interesses da instituição que o emprega(ou o explora, ou o aliena...). Se a companhia deseja é a produção de tomates entalados, o seu pensamento deve pensar tomates enlatados, o tempo todo. Gastar tempo pensando em música, jardinagem, política, ecologia, ética, é uma doença a ser evitada a todo custo, em benefício do controle de qualidade do pensamento. Em outras palavras: controle de qualidade do pensamento é cortar as asas da imaginação a fim de que ele marche ao ritmo dos tambores institucionais. O pensamento se tornará excelente ao preço de perder a sua liberdade. Isso vale para a IBM e para todas instituições de excelência tecnológica. Inclusive as universidades.
Quanto ao Leonardo Da Vinci, deverá se contentar em ficar desempregado. E, eu?
Eu, devo continuar minhas LEITURAS DA MADRUGADA...
MAS ISSO É SÓ DEPOIS!
UM ÓSCULO E UM AMPLEXO.
CUIDADO!!!
ADVERTÊNCIA!
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Se você é nazista ou gosta de Ursinhos Carinhosos, saia agora. Pensando bem, se você for realmente nazista, não precisa sair, você vai gostar;
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Mas eu não estou vendo quem é você, estou?
Devido aos novos integrantes, este blog se tornará contraditório e não-contraditório.
Este blog se baseia na Liberdade de Expressão, seja lá o que isso signifique.
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Um comentário:
Falta dar os créd
itos a quem de fato escrveu isso. ........ Rubem Alves em "A Arte de ensinar"..... Nao colocar a fonte é grosseiro e plágio.
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